Donos da mentira

Como grupos organizados transformaram o caos e a violência em máquina eleitoral

Pré-candidatos financiados por estruturas ocultas invadem hospitais, escolas e repartições públicas para produzir vídeos de propaganda política. Juristas e investigadores identificam divisão de papéis, caixa dois e uso de criptoativos no custeio das operações.

Ribeirão Preto, SP — A cena se repete com precisão cirúrgica. Um homem entra em uma unidade de saúde, em uma escola ou numa repartição pública. Não vai sozinho: há quem filme, quem provoque, quem garanta a hostilidade do ambiente. Em questão de horas, o tumulto fabricado já circula nas redes sociais, editado para fazer o invasor parecer um herói e os servidores públicos, vilões. O espetáculo foi roteirizado. A indignação, produzida. E, em algum lugar fora de campo, alguém pagou a conta.

Esta reportagem reconstituiu a estrutura por trás de grupos que tem como modus o caos fabricado e institucionalizado como método deliberado de pré-campanha. O que parecia o improviso de candidatos despreparados revela, sob análise, uma engrenagem altamente profissionalizada, com financiamento oculto, divisão de tarefas e finalidade eleitoral documentável.

Engenharia do tumulto provocado e a baixeza moral se tornaram o verniz perfeito para mascarar o despreparo político e ocultar o financiamento oculto de pré-campanhas.

O Brasil testemunha a consolidação de uma estratégia eleitoral tão barulhenta quanto perigosa, que pode ser sintetizada analisando como a fusão deliberada entre o caos fabricado e a mentira institucionalizada deixou de ser um desvio de conduta isolado para se tornar o método principal de pré-candidatos que, desprovidos de propostas reais para a sociedade, escolheram transformar repartições públicas em palanques de barbárie digital.

Por trás do teatro do “herói solitário” que invade repartições públicas, unidades de saúde, escolas e universidades fingindo cumprir uma missão cívica, esconde-se uma engrenagem fria, profissional, finamente estruturada e altamente financiada. O objetivo dessa tática não é fiscalizar, mas sim gerar a desordem necessária para capturar a atenção do eleitorado através do medo e da indignação. Ao linchar publicamente a dignidade de servidores públicos em pleno exercício de suas funções, esses agentes operam uma maquiagem perversa: usam a agressividade como cortina de fumaça para esconder a própria incompetência, frustrações e o completo desconhecimento da coisa pública.

Contudo, o espetáculo dos DONOS DA MENTIRA começa a ruir diante da realidade dos fatos e do avanço de investigações. O discurso hipócrita do candidato humilde e sem recursos cai por terra quando a Justiça joga luz sobre os bastidores. A estabilidade das ações, a divisão milimétrica de papéis — que envolve desde os brutamontes da linha de frente até editores de vídeo e redes de robôs para impulsionamento — e a origem oculta de recursos vultuosos configuram um cenário que ultrapassou há muito tempo o debate político. Sob o enquadramento estrito da lei, o verniz de “salvador da pátria” derrete, revelando o que de fato está em curso: o abuso de poder econômico, a violação de direitos fundamentais e a formação de verdadeiras associações criminosas disfarçadas de partidos.